5.4.13

o diabo que o carregue

dear:

eu pedi a deus que levasse o cadáver. ele não fez. nessas horas eu não fico só puto com deus: eu bem fico é com dúvidas de que ele existe. por que não me arranja assim um pedido tão simples? deve ser sacanagem a existência dele, só pode. ou a vontade dele é transformar toda essa gentinha aqui em santos sofridos, canonizar os joelhos à força. eu tento não me importar, juro. mas não dá. eu até fico imaginando que, da próxima vez, eu só vou ver riscas de giz no chão, os vestígios do que logo vai desaparecer. eu imagino muito, eu sei. mas que fazer então? eu imaginei aquele corpo, estive naquele lugar inóspito pela duração de uma vida. tenho certeza de que você entende. é muito difícil se desapegar de alguma coisa experimentada com  zelo e um tanto grande de amor. da minha parte. sabe, eu acho que vou pedir ao diabo para levar o morto...


20.3.13

amores sanguinários

honey,

não pude fazer outra coisa senão deitar no chão e morrer.
chovia sobre o morto. pode-se dizer que chovia no molhado, pois já era um corpo ensanguentado. caminhei um pouco para longe e assim, à distância, era até triste de ver. fiquei arrependido, arrepiado, e voltei até os pés daquele monturo. quanto mais eu olhava, mais me perguntava o que era eu e o que era tábua. o problema do espiritismo é essa miopia, esse não saber pegar sozinho nem na caneta e ter que depender do outro para tudo. mas com o tempo eu me acostumei e deu para ver o que era eu mesmo. 'tão pouco solene esse meu funeral', resmunguei baixinho. fiquei pensando quem é que recolhe esses corpos. deixar por aqui não dá. mais hora menos hora a gente acaba tropeçando neles. não deve ser bom ver um rosto apodrecendo, muito menos esse. e era um rosto tão bonito. não digo no sentido físico, claro. quando a gente se apaixona, fica com uma bonita cara de besta. o problema é esse. é isso, o problema: o que você está vendo aqui. quer dizer, o que eu estou vendo porque nem quando eu estava vivo você via. e eu tentei de todos os jeitos que você me visse. eu relutei bastante até sentir que o melhor mesmo era morrer. então deixei aquele corpo apaixonado ali na rua para poder seguir em frente, sem um peso morto nas costas. quer dizer, estou aqui ainda, com dó dele, justo porque não é sempre que a gente se apaixona. o mundo já é tão complicado e não acho justo fazer do amor também uma crueldade. foram precisos alguns tiros nesse corpo aqui. não quis acertar o rosto para não ficar desfigurado. eu quis acertar só no peito, que era uma forma rápida de aceitar o que não se passava no seu. agora passou. agora, do jeito que estou, eu não vejo mais você. até dá para viver com a culpa de ter matado a si mesmo - ou de ter morrido, não sei. o que não dava para fazer era continuar seguindo apaixonado por quem mal-te-vê. isso não dava mais. e agora, depois de morto, duas quadras depois do corpo, eu posso dizer: seu rosto foi o que mais mudou.

11.2.13

a ver navios

honey,

você está em algum lugar no litoral, a ver navios. talvez o cais não seja muito longe de onde esteja, onde quer que esteja. eu imagino seus pés esmagando uma areia fina e seu corpo se deitando em uma toalha colorida só para ver o mar por um instante. depois, quando o sol esquentar sua pele dourada, você irá a passos largos em direção ao mar, saltará algumas ondas e, enfim, dará um mergulho longo. você irá se levantar da água como uma serpente, uma água-viva, uma sereia. tirará os cabelos do rosto, a água deslizará pelo dorso e olhará para trás. não sei se estará me procurando ou se estará apenas conferindo se a praia continua no mesmo lugar. é mais provável, entretanto, que a cena não seja tão poética assim. sim, eu me culpo, eu tenho devaneios tolos, tenho sonhos a inventar. é provável que suas maiores preocupações tenham a ver com o tom do bronzeado, com o medo de uma arraia, com o que haverá, mais tarde, para o jantar. o amor não se ocupa do seu corpo agora. e por mais que diga que pensa em mim, sei que os pensamentos não passam de um arrependimento e de uma pergunta se. eu já não acredito que possa voltar, que deixe o litoral e volte para mim. já não penso mais em você com a mesma frequência, já me importo menos. o que havia, não está desaparecido, somente se enfraqueceu. e esta fraqueza é como a de um corpo doente, apodrecido por um mal que logo levará à morte. e um morto, não será jamais esquecido, será do funeral em diante uma recordação e uma ausência dolorosa.

eu me ausento de você desde agora. tudo porque o que você tem para me oferecer não é o suficiente, não é o que eu quero, não é o que eu esperava. acreditei que tivesse sido um encontro de almas que já se procuravam havia muitos anos, havia muitas vidas. duas almas se perseguindo até se encontrarem por acaso, sós e a sós, em um caminho de calçada. 'um milagre', havia sido meu pensamento, 'um milagre este encontro'. tudo porque desde sempre, desde o primeiro dia. antes era só aquele colher de gestos tão platônicos quanto distantes e cuidadosos. depois que nos encontramos, era para ser infinito, ao menos poderia ter sido. mas preciso admitir que não toquei seu coração e que seu coração nunca será tocado por mim apesar de todos os esforços que tive em achegar-me mais perto - o que é uma redundância.

não sei se é mais doloroso o amor que nunca se teve ou o amor que fracassou. por isso estou triste. hoje é um dia triste. há dias estou entrando nessa tristeza que é um luto. quando eu disse tudo aquilo, baby, estava encerrando nossa história e retirando o exercício do meu afeto das cercanias. desde que partiu para o litoral, pensava eu que pudesse voltar. não me fechei para as coisas do mundo, conheci pessoas. contudo, essas pessoas não me conheceram e nem virão a me conhecer. eu só me dou para o encantamento. não houve nada desse tipo, nem um feitiço temporário. eu me apegava à ideia de que pudesse acontecer, que o litoral fizesse bem a você e seus desejos. eu me enganei, eu sempre estive enganado em relação a você. agora, depois do que eu disse, talvez alguma pessoa possa me conhecer - não terei medo de que você volte e surpreenda-me com algum affair, com algum capricho. se bem que imagino que seria diferente para você, algo bem distinto da dor que tive ao ver você aos beijos com um par de dança. a cena era a prova concreta de que suas palavras eram verdade. e a culpa é minha: eu sonhei que o amor nunca morreria, mas os tigres vêm à noite com vozes suaves como trovões.

tudo bem. eu estou bem. a tristeza é só passageira. não se preocupe comigo. está acabado, está finito. mas de tudo o que eu sei: um dia você conhecerá o amor e será algo devastador. não esta calma. não este mexer de talheres e este tilintar de taças em um jantar educado. o amor dos amantes é furioso. não penso na paixão, o fogo fátuo dos dias pantanosos. eu falo deste amor que perdoa até mesmo as palavras, pois para ferir um coração a navalhadas bastam algumas orações. e eu perdoei suas rezas, seus esconjuros, seus palavrões. eu perdoei você. eu perdoo sua despedida antecipada, sua terra devastada, sua fuga para o interior. e sobretudo: eu perdoo a mim por ter amado, por ter esquecido que o amor é retribuição e por ter fraquejado e rabiscado um último poema de amor enquanto estou a ver navios:


se tu me amasses,
eu não estaria aqui,
no mar.

meu corpo não seria uma estátua
tão bronze

nem minha boca tão queimada
de sal.

se tu me amasses,
eu não passaria desatino,
nem fome, sede, medo.

também não viveria mais
o veneno de ser um clandestino.

e tu me amasses,
eu não morreria,
viveria de preces
até o fim do fim dos dias.

eu não sentiria febre
ou dor
ou raiva
ou rancor de outras alegrias.

se tu me amasses,
eu viveria tão só por ti,
emborcado pela pele do teu corpo
iluminado.

mas como não me amas
e porque tanto te amo:

eu desfaço-me,
destroço-me,
naufrago-me

fazendo-me língua das marés
para lamber teus pés bronzeados,

e me aproximar molhado
para amar o que o amor traz à praia.


20.12.12

carcaças de cordeiros


my dear,

os leões já devoraram quase todos os cordeiros. não há mais lugar para a inocência e a brancura. é quase um holocausto, quase uma imolação compulsória. este é o tempo dos felinos famintos, das feras facínoras e dos assassinos. os cordeiros que restam, se ainda restam, sentem medo porque andam por aí lobos em pele de carneiro. às vezes, mesmo estes mascarados são devorados pelos leões. são raros os casos, mas não impossíveis: o leão pode ser o lobo do falso cordeiro. do lugar de onde escrevo, passar-se por cordeiro ou ser cordeiro é uma condenação. ainda que não se encontrem leões pelo caminho, não há chance - é também a desesperança que os pode destruir. o desejo do amor há tempos deixou de ser uma dádiva. por isso, na tentativa inútil de persistir a quimera, os cordeiros usam peles de lobo enegrecidas ou jubas eriçadas de leão - juram, juram devorar o próximo carneiro e não se importar. pena que estes, mesmo tentado se esconder, se importam. e são pegos. e são mortos. os leões não têm piedade. este é o tempo da selvageria, é bom que se saiba. não há espaço para o amor, só para os dentes na carne, para a arena de feras e feridas de luta. tudo porque o amor perdeu o objeto. ou porque os objetos igualmente perderam o amor, a palavra, o sentido, o sujeito. é tudo tão difícil. um cordeiro pergunta: o que se ama? e a pergunta deveria ser: quem se ama? não há nomes nos discursos, só o sangue nas savanas, os quantos beijos diferentes, as quatro camas de quatro quartos. a geografia deste lugar torna o amor intransitivo e intransitável. os sujeitos não têm objetos e nem podem caminhar pelo corpo e suas calhas. este é o tempo dos cordeiros ao lado dos salgueiros, chorosos, chorosos cordeiros. é o tempo dos canalhas, dos infames leões ferozes, dos atrozes fornicadores. cada cordeiro de cal, coberto de neve, de clara, cinza-pálido, cada um, serve apenas aos rugidos bramantes. cada cordeiro, meu bem, já é uma carcaça. esconda-se, por favor, como já me escondi da minha própria lã, tentando não passar por borrego, nem por inocente cheirando a benjoim. é inocente resistir, mas ainda quero esperar que da vida o amor seja uma oferta vindoura, prometida e verdadeira. ainda gostaria de sentir a devoção inteira derramada sobre minhas patas e pelos, meus cabelos, meu rosto, meu corpo inteiro. ainda desejo ver deus, sentir-me em seus braços e, então, dar adeus ao oco destes troncos onde me escondo e escrevo.

14.12.12

a espera da janela

por que eu volto aqui? não vejo razão. ignoro a razão. na verdade bem sei. eu sempre sei, mas fico me sabotando, fingindo que não, impedindo que sim. eu recalco a ideia de um porquê. se ainda houvesse satisfação, mas. eu já não te peço mais, nem saberia. pouco me importa agora que a demora já se fez tanta e qualquer volta seria apenas uma tortura. era a liberdade que te chamou primeiro, não o amor. e eu volto aqui para saber do que é feita esta tua liberdade. e o que vejo me derrota, me enche de algo que eu nem quero falar. pois essa tua vida por si mesmo é cheia de água morna, de uma dança suada, de beijos desconhecidos. fico a imaginar teu pescoço deitado no travesseiro, repassando a noite, pensando ter sido divertida e esperando que no outro dia, quem sabe, alguém telefone. e não telefonam. e a noite se repete e a mesma espera acontece de novo e de novo e de novo. água, dança, beijo, alguém. no phone calls. sem falar nos dias em que a intimidade vai além, vai até a roupa caída nos pés, até o corpo inteiramente nu e preparado para uma cama branca e limpa à espera de não sei o quê. (nunca me diga, por favor). não sei quanto vai demorar para perceber que a falta de laços é, na verdade, o vazio dentro de um laço. então, quem sabe, você volte os olhos para mim. só que não estarei mais te olhando, nem terei voltado mais aqui. eu só venho para entender, para ter certeza de que era isso, de que era esta coisa desregrada que queria. eu só venho dar murros em pontas de faca porque o melhor que eu tinha não era o teu melhor. nem era pra você. só que o que você preferiu é tão menor que me fez sentir menor. e vazio. então é melhor eu voltar e desistir de olhar pela janela e de me deparar com a tua falta através dela.

21.11.12

o tudo que eu tanto sinto


dear,

tenho evitado sua insistente pergunta de como eu estou. seria possível descrever? esta é uma experiência sem palavras, emaranhada no corpo de tal forma que nem a garganta, nem a língua, nem a mão e as pontas dos dedos poderiam desenhá-la. há um quê de estrangulamento no corpo, as vísceras se contraem enquanto o espaço sideral se expande. então, por favor, não. cada vez que me questiona só consigo pensar que já está bem, que já passou, está em outra. afinal: it was just an infatuation. por que descrever algo que não pode entender se não o pôde sentir antes? talvez eu responda: 'estou bem'. mas seria apenas para distrair o tempo, dar tempo para que eu possa fugir e não dar maiores explicações. claro que queria que entendesse, no entanto, para que isto fosse possível eu precisaria desejar o mesmo: esta indiscrição do interior, este indescritível. assim você conheceria todos os acompanhamentos e não precisaria perguntar porque dos meus olhos comovidos, flutuando desolados em uma nuvem enfumaçada. só não quero desejar nada, nem isto, porque isto seria pedir que amasse outra pessoa e enfrentasse a descompensação súbita do desamor. se eu pudesse pedir, se eu tivesse direitos, seria apenas que olhasse pra mim, beijasse minhas vontades e me trouxesse a mesma paz dos primeiros dias. eu pediria que descobrisse o amor no jardim, não este inferno de apenas um expulso por deus. eu nem quero lembrar que desde o primeiro dia, tu sabes, eu te vi e te amei. não quero mais lembrar que desde a hora em que havia confessado me amar, o casco do meu corpo não desceu mais ao mar, mas singrou soberano na altura dos ventos, só para depois virar tempestade, trovão, destroços de um furacão que nem sabe o que faz. como tu não soubeste, mas fez eu acreditar. perguntar o que eu sinto não te tornas mais responsável por nada. só te tornas o nada. e o tudo que eu tanto sinto.

10.11.12

infatuation

dear,

estou andando com os pés nus em um tapete de folhas secas. o barulho distrai os pensamentos e, distraído deles, posso manter-me sóbrio. o efeito não durará muito. o tapete precisaria ser extenso, as pernas não deveriam se cansar, o barulho necessitaria de um quê de ininterrupto. ainda assim a duração desta distração ajuda um pouco. se eu parar agora, ficaria doente dos olhos -  as duas pupilas enormes, encharcadas, inchadas. por isso quero este som terapêutico de folhas amassadas. no silêncio, os pensamentos seriam ensurdecedores e ficariam me obrigando a colocar tudo em ordem, passando os dias por trás dos olhos como num desfile militar. eu não quero extrair verdades; nenhuma hipótese, nenhuma aritmética me serviria para coisa alguma. basta viver as coisas como elas são e estão. experimento meu corpo inteiramente magoado. saiba que é nessas horas que deus fecha os olhos, lá do alto deus fecha também o coração, enchendo ainda mais de orfandade e de solidão seu menino aqui embaixo. eu tinha conseguido dominar o monstro abissal, impedindo que ele despertasse & saísse das sombras & e viesse à tona; pensei que pudesse apresentá-lo quando por acaso nos encontramos no caminho de ciprestes. como eu fui tolo, como eu estou sendo. depois de ter reportado ao mundo aquela estranha glória, tão triste foi ter que empurrá-la novamente para o lugar de onde veio, inteiramente derrotada pela civilização. este é um segredo: às vezes o monstro tem nome de amor. e ninguém o quer. ainda que fosse belo, ainda que fosse bom. às vezes, raras as vezes, alguém o convida a entrar. então se vampiriza e ataca seus hóspedes. que posso eu fazer? ando por um tapete de folhas secas. it was just infatuation. i am so sorry. nada poderia ter sido pior, baby. então eu empurrei o monstro no abismo, espero que ele tenha quebrado as patas, tomara que tenha morrido.

30.10.12

barco-iemanjá

honey,

como gosto de ver teu rosto sério, o mistério do teu semblante preocupado. como gosto de me ocupar com tuas risadas estaladas no ar; naufragar nesta baía que são teus dois braços abertos para me enlaçar. só não gosto do descompasso dos nossos pés separados, caminhando silentes, sem notícias nem cartões-postais, desolados. por isso, não sei se prefiro te ver dormir ou acordar, gosto de ambos, pois nos dois nos encontramos no mesmo lugar. ah, o mar que vem para praia não adivinha a felicidade que é achegar-se a uns pés tão bonitos e tão perfumados de deus. nem a azul iemanjá rendi tantas graças, nem a ela enviei tantos barcos com prendas e pedras e tesouros de amar. a princesa do mar mal pode, pouco é, próximo deste novo rosário de contas. eu te adoro e estou a teus pés, inteiramente gato, enrodilhado na sombra enorme que me cobre e se chama, por certo, amor de marés - misto de vaga violenta e contínua calmaria.

26.10.12

iluminuras

honey,

depois da luz, deus fez você. para que, com seu corpo iluminado, pudesse dar a ver a verdade dos seus olhos. e no primeiro momento da primeira hora, o vento soprou sobre os lírios do campo. nunca mais o dourado seria o mesmo. nunca mais teria o significado visual dissociado da memória dos seus cabelos. de centenas de raposas iguais umas às outras eu via apenas uma. a que enxergava o trigo no campo como eu enxergo o lírio. ela tinha um príncipe; eu tenho você. e porque nos cativamos temos um segredo, invisível. daquela ponta até aquela outra ponta da europa, a mais ocidental delas, fizemos um território essencial - castelos, reis, reinados. os beijos são portugueses nos paralelepídeos, são doces e árabes nos calçamentos e no casamento de nossas mãos, espanhóis. entrelaçados, os braços que abraçam criam laços ainda mais apertados de amor. os olhos já se podem, os olhos se caçam, os olhos não se cansam de perder-se. desde a primeiro hora já sabiam que algo aconteceria, só não sabiam quando nem como. então deus inventou a luz, a grama, a savana, o vermelho dos seus fios. foi quando eu vi seu corpo iluminado me atravessando os ombros. e, atravessado, cai capturado por um campo primaveril, cheio de flores douradas. 'olhai os lírios do campo e molhai-os nas águas azuis do cais', disse o próprio deus. eu olhei e amei o que vi nos olhos seus.

21.10.12

às tuas costas

dear,

eu estava pensando em ti, mas eram outros os pensamentos, não eram aqueles motivos tolos que enchiam minha casa no meio no meio da rua. na verdade, baby, eu vagabundeava os pensamentos por ti, escalando os desfiladeiros da tua carne como um conquistador, nadando pelo gosto da tua pele como um imperador do rio. isso é tudo o que eu tenho feito nos sonhos acordados que tenho tido contigo. sonhos em separado, sonhos inseparáveis de mim por agora; tão distantes de ti que não me adora e nem imagina o que sinto. os instantes não duram muito sem que sejam perturbados pelas lembranças que tenho, como os seixos e os círculos de ondas no lago dos devaneios. não sei pousar os meus olhos nos teus sem me denunciar, sem sentir que o encontro mínimo já pode me confessar por inteiro. eu confessaria se não tivesse medo, se não estivesse tonto. o que aconteceu comigo, meu deus, entre o pedido e o perdido de amor? estou tão embriagado que ao teu lado eu perco o som - tremula a flâmula da voz, a garganta é um fio de mastro arrebentado. perto de ti, eu tenho miopia para o resto do mundo, tenho um ancoradouro para o teu navio. por isso, enquanto eu tocava em ti nos acidentes inventados do cais, faíscas de vontade voavam à vontade pelo ar e pelo mar. a luz da tarde caía suavemente. o que eu pensava era ir mais longe, mas não sabia o que dizer, nem como esconder revelando meu coração acidentado. por fim, depois que caminhamos, de mãos dadas como eu havia sonhado, às tuas costas confessei o que tanto havia guardado até então.

Pesquisar o malote

Carregando...