arte postale par avion







Pesquisar o malote

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14.11.09

gramática



dear,
a palavra começou a existir. a palavra começa. a palavra peça o que começou de mim. e do que não foi feito ainda, não impeça. pode ser um adjetivo monarca, um transitivo de verbo. mas me complemente, por favor, nem que seja pela ponte prepositiva, o adjunto adnominal, a oração subordinada. dê suas ordens, seja imperativa, exclame! mas clame por mim o que quero. sou um sujeito. e quero, desejo um predicado. talvez um verbo de ligação que me coloque em outro estado (o do amor). não assim, entre vírgulas, uma explicação para qualquer coisa que tenha vindo antes. cansei do futuro do pretérito, da fantasia; cansei da hipótese, da ideia subjuntiva; também cansei do passado. perfeito ou imperfeito não sei qual pretérito dói mais. pesa. diga então, qual advérbio vai definir esse pedaço de tempo. e não me venha mais com esses artigos indefinidos, cheios de assuntos genéricos. tenha coragem de fechar o código, de limitar o discurso, cercear aquilo que escapa ao substantivo. não me venha falar de abstrato, concreto, definições metalinguísticas. eu quero os pronomes, as pessoas do discurso, as ações dessas pessoas no mundo. eu quero o eu, o tu, as quantas coisas que o nós pode fazer a sós. então por que não me começa a existir? dê-me uma palavra que eu serei o que me nomeia. pois será tão bom deitar de noite, ser o signo mais arbitrário da linguagem, provavelmente o mais feliz. 

(a palavra começou a me existir)

10.11.09

calendário infinito


dear,

há dias em que eu preciso inventar a paixão para não morrer. para não entregar os pontos, as fendas por trás dos joelhos, o doce da virilha. mas nem sempre é o melhor a ser feito. às vezes é preciso invocar o nome da guerra, criar a guerra no seio. arrasar o pavilhão de hibiscos cheio de cheiros de flor suada. tudo para extinguir a última porção de músculo, fazer das tripas o coração suado do menino. dear, há dias que preciso inventar a mim mesmo, borrar os limites da caricatura, fazer outro nariz, boca, queixo. talvez pintar os olhos de outra fundura, menos de eclipse e mais de buraco negro. encher o corpo da luz mais próxima, aquela, atravessadora de milhares de fragmentos e piscinas de sol. uma luz gêmea das lamparinas de querosene nas fazendas, das serestas à meia luz, das missas na penumbra do convento. mas nem sempre é o melhor caminho a reinvenção do amor. nem sempre. transgredir a potência do desejo, invalidar a fórmula de báskhara, reduzir o sentimento a um segundo grau, tudo, tudo menos o vazio. apareço eu, então, no jardim da pele para extrair qualquer raiz dos números quadrados, sem curva ou gesto de rosto. apareço eu, lavrador das enseadas, deitado na escuridão, há dias atrás, antes de morrer no meio de um calendário morto.

7.11.09

a última poeira


dear,

a última poeira de radiação devorou a carne e tisnou os ossos. acho que vi a imagem de são sebastião flutuando ainda, uma bolha de sabão. acredito ter visto os amantes desaparecendo como o nada, para tornarem-se o próprio nada desaparecido. estou quase certo de que vi as carícias derretidas como papier maché. foi então que alguém perguntou: e os sobreviventes? nós somos, nós somos o assomo dos dias, eu respondia aos gritos. triste aprendi em hiroshima que não devo - nem posso - contar meus sonhos antes do café da manhã. mas agora estou pronto: eu era invictorioso no jardim, meu tigre, ou era torre meu lar? esqueça e vire a página, pois venho escrevendo esse romance desde que nasci. há trechos muito tediosos, mal dormidos e de hálito desagradável. nele as personagens são muito parecidas comigo e com você. são um carrossel de fragmentos inventados. mesmo eu, às vezes, tenho a impressão de sentir de verdade o suor do seu corpo na página. mas nem por isso venha reivindicar poderes e propriedades deste horizonte discursivo. peço, pois, que não se encontre nestas palavras. elas não valem nada, não valem o homem que as enuncia. confesso que estou afetado, a radiação ferrou meus olhos. então peço à carne, aos ossos, à poeira o último envelope despido.

2.11.09

dos mortos, dia.

dear,

eu prefiro a revolta secreta das palavras, a das cartas para nada, extraviadas da intimidade entre dois escreventes. eu prefiro chamar as coisas por nomes diferentes. a mesma coisa, dois nomes, mil nomes, não importa. já chamo você por um vocativo genérico, o que me parece suficientemente pornográfico. aliás, é isto o que nos distancia: as infinitas possibilidades de gozo. e de jogo. verdade que assumi, também, o blefe e o gosto pelas cartas marcadas. o timbre cortante de espadas; de costas, assinaturas de naipes; de fora, o ouro; arrasado e por dentro, as copas de um peito manchado. verdade que aprendi a mentir em troca de outras verdades, só para que fosse confessada, de joelhos, a mentira. talvez, por isso, tudo o que tenha tocado suas mãos, tenha desaparecido. o acesso à mentira é um blefe de jogador. hoje conjurei seu nome enquanto o dia desaparecia. talvez porque, quase sempre, no dia dos mortos, tudo volte ao lugar. antes de escrever eu encontrei seu fantasma pela multidão, a presença translúcida de um morto de há muito tempo. as coisas que me disse, fiquei sem saber, sem acreditar. não acreditei antes, não acreditarei agora. embaralho novamente as palavras, os pedidos apaixonados, as cartas que escrevi sem mandar. e peço apenas uma coisa: corte. interrompa o fluxo, esqueça desse orgasmo sujo dos dias de veraneio.

30.10.09

desapareça.


honey,


eu tenho para lhe dizer isto: desapareça. não deixe rastro, sinal, vestígio grave ou suave de sua presença. desapareça para sempre, para o nunca mais, para longe do quem sabe. também para o lado de lá, o sem alcance, o lado fundo de quem sabe que você já existiu. que o desapareça torne-se mais que uma ordem, mais que um imperativo ou uma diretiva - que seja seu nome, seu sobrenome, sua marca de nascença, seja sua face de agora e do futuro. desapareça e seja o nada. seja o fogo morto, o último sinal de fumaça, a tribo indígena exterminada, o animal em extinção. desapareça para que não seja mais possível nomear o que diz ou o que é, para que seja inominável e, assim, sem nome, não se possa nunca mais evocar. então: desapareça com o vento, com o invisível, com a mão de deus no momento da morte, naquele gesto de quem toma de volta para si o sopro soprado. desapareça e torne-se menos que plutão, menos que um planeta, uma estrela, um buraco negro, menos que qualquer coisa que caiba num grão de poeira. desapareça da mesma forma que o terrorismo faz desaparecer as coisas do modo mais insensato. desapareça de mim, daqui e do horizonte inteiro no qual caminho. desapareça como a infância no corpo, como os velhos na velhice, como o amor depois de trinta anos de casamento. desapareça para que nem a linguagem possa falar do passado vivido ou do futuro que havíamos pensado viver. e, sobretudo, peço mais ainda: desapareça com o próprio desaparecimento, para que nem eu mesmo saiba que fiz um pedido tão raivoso.

17.10.09

réplica


dear:

[me devolve o silêncio depois, porque a carta você terá que abrir.] agora posso começar : a carta perdeu-se no meio da multidão. talvez porque não houvesse nada, nem linha, nem âncora. era só o volume do vazio que enviei. pelo prazer perverso de pagar na mesma moeda.

23.9.09

leãodade

dear,

ao final do dia, preciso esfregar a carcaça do leão no asfalto, ver a fera gemida, a pele rasgada e a carne sangrenta. depois, esfrego a arcada dentária, os ossos e a juba na minha cara para dizer: eu venci. e mesmo vencendo eu não me sinto melhor. vencido, o leão não é pior. o bom seria não precisar segurar na garganta a selvageria, o surto felino que vem das entranhas e das entradas do menino-homem. às vezes, às vezes o leão morde o homem. da ferida, da dentada marcada, vai-se um naco do corpo-menino, aparece o pus e a enfermidade. viver é uma doença. [seria quase a morte não fosse a vida]. eu me aguento na loucura que tenho. tenho vontade de gritar, não grito. tenho vontade de chorar, não choro. tenho vontade de correr, corro. deixo atrás de mim as pequenas epifanias das esquinas, dos calçadões, dos bancos de ônibus. atrás de mim, deixo as sensações mais profundas da vida. aguento-me na parte rasa do dia para que ninguém perceba a ferida. eu sangro. o leão mordeu-me e precisei fugir. mas fui forte outra vez. em silêncio, a fuga foi no silêncio do menino. e o homem, desapontado, diz: estou perdendo a conta de quantos leões de campanha precisarei esfolar na porta de tua casa. eu volto vivo e não sei quantos leões. é uma arena este lugar. uma casa deveria ser um lar. apenas sinto-me seguro na hora que você dorme, na hora que morre, na hora que me cospe pra dentro. ao final do dia, eu te engulo de silêncio para me sentir seguro. já não aguento te aninhar na carcaças de leão e gemer baixinho com medo desse teus medos tão meus.

19.9.09

o que dirá, marguerite duras?

honey,

vi a doença bem de perto. fiquei doente. a doença me deixou doente. doente para vida. vi que há pouco tempo e muito a fazer. muito a fazer em tão pouco tempo e nem tenho. não possuo. o tempo. o amor não me possui. quero possuir. o amor. o amor é uma doença. cresce como um câncer e se espalha pelos sentidos, em metástase. fiquei doente desde a primeira vez. desde o primeiro gosto de querer. era saliva, era suor, era lágrima. a dor. a dor de estar doente. a febre dos amantes, o calafrio do roçar descuidado, o descompasso do pulso. em postas, o pulso. em pratos limpos, o susto. o soluço do encontro nas esquinas, do corredor batido, do meu sentar na janela, do desejo à espera. e eu continuei doente. os olhos inchados, em águas de calha, em águas sujas de tempestade e sarjeta. olhos vermelhos pôr do sol, de quem vê de longe a cor se pôr, ao longe, se pôr na noite que não se vê. não se vê os olhos que choram, as narinas que coram e os cílios que colam na ramela. os cílios que enferrujam a carícia trêmula, que molham o dedos tocando a própria boca. o desejo é uma doença, eu quero. quero saltar no lugar que a carne tremula, onde o gozo é macia flâmula desfraldada. quero saltar no lençol, fazer o espreguiço de gato, lamber os pêlos, as patas, lamber o dorso meu e do amante, ser o gato, ser o rato, ser o sapato jogado de canto. quero ser um pé quarenta, ser quarenta graus, quero ser o limite da estrada e o calor debaixo do braço. quero saltar do oitavo andar. sacia minha fome, eu tenho sede. é cedo e quero a canja aguada, a limonada e o cobertor de boa noite. quero um ouvido na minha respiração. talvez um ronco que não seja meu. quero um gemido, um grunhido. mas quero. quero agora a doença de enlouquecer na espera, de fazer do minuto a hora suada, a mão mordida, o chão riscado com o pé. quero ser a maçã do rosto, ser comido, devorado, cuspido de vermelho ou de verde, ser a maçã argentina. a maçã do amor.

18.9.09

reiki lounge nº3


my dear,

tenho comido brotos de trevo. para dar sorte. como com avidez todo o trevo que tenho, todo broto, na esperança de comer a sorte. é a sorte um trevo de quatro folhas. talvez a sorte de ter mais que um retrato 3x4 seu comigo. ou a sorte do futuro, do que vem ainda, depois do broto. então é missão do estômago saber o que o coração planta. igualmente a sua saber de tudo [ainda]. aprendi um novo sabor: torradas com geléia de damasco. cansei da amora e do morango, sobretudo das lembranças do seu corpo em mim e do cheiro dessas frutas nos pêlos de sua pele. a boca, os dedos, as coxas lambuzadas de geléia. eu sou abelha, eu sou o ferrão. noite passada tive sonhos: você aos doze anos; eu por doze vezes amando a infância e o vir-a-ser. eu era beija-flor e lambia o primeiro verde dos seus anos. era quase uma pedofilia, o amor. então como os brotos. quero ter a sorte de ser. e ter. há a loteria do amor, o grande globo de bolas cantadas e os números idênticos na cartela. eu aposto tudo o que posso. não preciso saber se faz o mesmo. eu só queria, só preciso, desejaria nunca ter conhecido: você. a cidade está perdida, por isso sei quando está aqui. as ruínas da terra santa ainda ficam espalhadas pelo asfalto, pela europa de cá. por três países desci do mundo e nem conto as coisas que vi acontecerem. vi três chorões chorando nas ruas, vi por três vezes meu retrato em preto e branco. um tornado, uma jaula, um cordeiro. ouvi dizer que eu amo o infinito. também me ouvi dizer o quanto amo enquanto como o desejo que sinto. de você, de você eu como o broto.

13.9.09

reiki lounge nº 2

my dear,

o signo ascendente subiu até a estrela próxima, algodão por algodão. eu disse que era para se aproximar, que não precisava ter verbo de medo. por que não quis ouvir o zodíaco? esperei na janela a voz inteira da noite sumir. e você não veio nem trouxe de volta o que eu quis. pensei três horas se deveria ou não fazer um pedido. deixaria-me perdido pedir. e como não tenho feito honra aos incensos queimados, às cartas marcadas, às coisas escritas: fraquejei. por vontade e por melhor deixei só o silêncio sublinhando o valete de copas. deixei o silêncio só, sem mãe, rascunhando os naipes no tapete da sala. deixei o silêncio em casa, só, preenchendo de cor o silêncio que ele mesmo fazia. deixei, já sei de cor, deixei a solidão e o silêncio na minha parte vazia. ainda me perguntei: o que fazer do touro de mim, que se desmancha, e do outro, o meio cavalo meio homem que vai surgindo aos poucos? fortune-teller, por que você não me trouxe o futuro, por que você não quis ouvir? era para o mundo me dizer: 'ponha suas mãos em mim, ainda com a cara de ontem, com o som lounge da última noite, pela segunda vez'. era para o signo subir, costurando vestes brancas pela noite, cosendo roupas deliciosas de dormir. era para ser um sonho tudo que nascesse do monturo do passado, por cima do muro de tudo que é presente.